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ATOS DOS APÓSTOLOS


O livro de Atos tem um papel central no Novo Testamento: ele conecta Jesus com a comunidade cristã emergente, e os Evangelhos com o restante do Novo Testamento. Ele encaixa a proclamação da mensagem cristã em ambientes judaicos e gentios, e enfatiza os papéis fundamentais de Pedro e Paulo, na transmissão das boas-novas por todo o Mediterrâneo. É a história de uma mensagem dinâmica que alcança a todos.

CONTEXTO
Lucas escreveu em uma época em que as boas-novas a respeito de Jesus Cristo estavam se espalhando, de Jerusalém a todo o mundo Mediterrâneo. Provavelmente, Lucas era um gentio (não judeu), e o seu material sobre as origens cristãs tem em mente as necessidades e as perspectivas do mundo maior.

Lucas iniciou a sua apresentação da mensagem de Cristo com uma narrativa da vida de Jesus (o Evangelho de Lucas). No livro de Atos, Lucas descreve como a fé cristã foi levada a todo o mundo Mediterrâneo.

Era importante que Lucas mostrasse que o amor e a misericórdia de Deus se estendem a todas as pessoas – “Deus trata a todos de modo igual”, como disse Pedro a Cornélio (At 10.34). Cristo é o único Salvador (At 4.12), de modo que todos devem crer nele para ter a salvação e a nova vida (At 16.31). Apesar da tendência dos cristãos judeus de conservarem a misericórdia de Deus somente para eles, a igreja chegou à conclusão de que os gentios estão completamente incluídos nas promessas de Deus (veja At 15.1-31). A mensagem do perdão dos pecados destina-se a todas as nações.

RESUMO
Os apóstolos e outros servos de Deus foram cheios do Espírito e capacitados a transmitir a Grande Comissão a todas as pessoas. O livro de Atos destaca os ministérios de Pedro (At 1.1–12.25) e Paulo (At 13.1–28.31).

O livro de Atos segue um esquema geográfico, baseado em At 1.8. A mensagem e a comunidade cristã se espalharam por Jerusalém (At 1.1–8.3), na Palestina e na Síria (At 8.4–12.25), e no mundo gentio, por todo o Império Romano (At 13.1–28.31). A palavra final do texto grego de Atos (akōlutōs, “desimpedido”, At 28.31) se refere à transmissão sem obstáculos do evangelho aos judeus (At 3.1–5.42), samaritanos (At 6.1–8.40), “religiosos” (At 8.26-40; 9.32–11.18), e gentios (At 11.19-30; 13.1–28.31).

PROPÓSITOS DO LIVRO DE ATOS
Biografia. Pedro, Estêvão, Tiago e Paulo foram os principais personagens que lideraram o movimento cristão.

História. O livro descreve os lugares em que a mensagem cristã foi transmitida, e as reações de autoridades e cidadãos a ela.

Geografia. O livro de Atos mostra como a mensagem foi levada de Jerusalém a Roma (1.8; 9.15).

Evangelização. Atos dá claros exemplos de como os líderes cristãos proclamaram as boas-novas a públicos diferentes (observe os sermões dos capítulos 2–5,7,10,13,22,26). Atos mostra que o evangelho está aberto a todos – não apenas aos judeus, mas também aos gentios (incluindo samaritanos, “religiosos” e “convertidos ao Judaísmo”; 2.8-11; 8.4-25; 10.1–11.18), e não apenas aos homens, mas também às mulheres (5.14; 8.12; 16.13-15; 17.4,12,34; 18.26; 21.9).

Política. Atos apresenta uma forte defesa da fé cristã para os judeus (4.8-12; 7.2-53) e para os gentios (por exemplo, a defesa de Paulo perante Félix, 24.10-21, e perante Agripa, 26.1-23). Lucas afirmava que o cristianismo tinha direito à mesma proteção de que o judaísmo desfrutava como uma religião lícita (“religião permitida”), e que não representava nenhum perigo para o Estado Romano (18.15; 19.37; 23.29; 25.25; 26.32).

AUTORIA
Lucas era companheiro de viagem de Paulo (veja 16.10) e esteve com Paulo durante os seus últimos anos (2Tm 4.11). Várias passagens do livro de Atos aparecem na primeira pessoa do plural (“nós”; 16.10-18; 20.5-15; 21.1-18; 27.1–28.16), o que sugere que Lucas esteve com Paulo durante partes de suas viagens. Em Cl 4.14, Lucas é mencionado como “nosso querido médico” em conexão com outros não judeus (cp. Cl 4.11) que estavam trabalhando com Paulo (veja Fm 24). Paulo ficou agradecido pelo amor de Lucas e pelo seu apoio como um colaborador e amigo fiel.

Aparentemente, Lucas também foi o autor do Evangelho que tem o seu nome. O ponto de vista teológico é consistente nas duas obras. Cada livro destaca o caráter histórico da ação de Deus na redenção, o papel central do Espírito Santo, o lugar central da oração, a importância dos anjos, e o cumprimento das promessas do Antigo Testamento na vida de Jesus e na vida da comunidade cristã, que se desenvolvia. Lucas era um teólogo da história sagrada que via Deus governando o curso dos eventos, para realizar o propósito divino.

Como um historiador grego responsável, Lucas usou bons métodos históricos e descreveu seus procedimentos detalhadamente, mostrando preocupação em escrever uma narrativa precisa e ordenada da verdade das origens cristãs (Lc 1.1-4). Onde outras fontes se mostram capazes de comprovar os textos de Lucas, ele prova ter sido cuidadoso e preciso para lidar com detalhes históricos. Lucas também era um artista literário, um talentoso contador de histórias, que observou e retratou, claramente, a mão de Deus, no desenvolvimento da missão cristã. Ele é um dos mais importantes escritores históricos, entre Políbio, “o último dos grandes historiadores gregos” (anos 100 a.C.), e Eusébio, o primeiro grande historiador da igreja (275-339 d.C.).

DATA E LOCAL DE ESCRITA
Provavelmente, o livro de Atos foi escrito em Roma, embora a Grécia e a Ásia Menor sejam locais possíveis.

O livro de Atos é datado, de maneira geral, entre o início dos anos 60 d.C. e o fim da expectativa de vida dos colaboradores e companheiros de viagem de Paulo (meados dos anos 80 d.C.). Muitos estudiosos optam por uma data posterior a 70 d.C., afirmando que Lucas usou Marcos como uma de suas fontes e datando o Evangelho de Marcos no fim dos anos 60. No entanto, Atos não faz menção ao resultado do julgamento de Paulo (em aproximadamente 62 d.C.); à morte de Tiago, o irmão do Senhor (no início dos anos 60 d.C.); à perseguição dos cristãos realizada por Nero, depois do incêndio de Roma, em 64 d.C.; às mortes de Pedro e Paulo (em aproximadamente 64~65 d.C.) e de Nero (68 d.C.); ou à destruição de Jerusalém (70 d.C.). O livro de Atos termina com Paulo sob prisão domiciliar (60-62 d.C.). Portanto, parece mais provável que Lucas tenha escrito Atos antes de 64 d.C. Os que atribuem ao livro uma data posterior a 70 d.C., responderiam que Lucas omite esses eventos porque não são pertinentes ao seu propósito (veja 1.8; 9.15; 28.31).

DESTINATÁRIOS E OBJETIVOS
O livro de Atos é o segundo volume de uma obra de dois volumes (veja 1.1-2; Lc 1.1-4). O principal destinatário do Evangelho de Lucas e do livro de Atos foi Teófilo (1.1; Lc 1.3), cujo nome quer dizer “amigo de Deus”. Teófilo é descrito pelo título “Excelência” (Lc 1.3), que é usado em outras passagens a respeito de governadores romanos como Félix e Festo (23.26; 24.2-3; 26.25). Teófilo pode ter sido patrono e benfeitor de Lucas. Ele era um gentio que havia recebido instrução cristã (Lc 1.4). Lucas queria que ele e outras pessoas tivessem um entendimento preciso da fé cristã e de sua transmissão pelo mundo mediterrâneo, para que pudessem conhecer “toda a verdade” das coisas a respeito do cristianismo (Lc 1.4).

CARACTERÍSTICAS LITERÁRIAS
O material de Atos é apresentado de maneira precisa e cuidadosa (por exemplo, 11.28; 18.2), e essa precisão tem sido confirmada pela arqueologia, geografia e estudos correlatos. Lucas combinou exatidão histórica e detalhes com um dom para fazer descrições vívidas e dramáticas (por exemplo, 5.17-32; 12.1-17; 14.8-20; 16.11-40; 27.1-44).

O livro de Atos está repleto de sermões poderosos de Pedro, Estêvão, Tiago e Paulo (2.14-40; 7.2-53; 15.13-21; 22.3-21). Os variados estilos literários do livro estão em conformidade com o ambiente cultural, de uma maneira notável. O sermão de Pedro, no dia de Pentecostes, tem um forte caráter judaico (2.14-40), ao passo que, diante dos cultos filósofos gregos em Atenas, a pregação de Paulo usa as formas da oratória grega (17.22-31). Todas essas características respaldam a autenticidade histórica do livro.

SIGNIFICADO E MENSAGEM
Atos mostra que a fé cristã realmente cumpre as promessas de Deus que foram registradas nas Escrituras hebraicas (2.16-36; 4.11-12; 10.42-43; 13.16-41; 17.30-31; veja Lc 24.25-27,44-47). Cristo traz a salvação (8.35; 10.36; 16.17,30-31). A oração promove o reino de Deus (1.12-15; 2.1-4; 4.24-31; 12.5) ao passo que o Espírito Santo capacita e equipa o povo de Deus para realizar a sua missão (1.8; 4.8,31; 6.3,5,10; 7.55; 11.24; 13.9,52).

Atos mostra a importância dos indivíduos que Deus escolheu para transmitir a sua mensagem e testemunhar a respeito de Cristo. No princípio, os apóstolos testemunhavam a respeito da vida e do ministério de Jesus (1.22; 10.39-41; veja Lc 1.2) e explicavam a importância de Jesus no plano de Deus para redimir a humanidade (2.40; 3.15; 4.33; 10.42). Matias foi escolhido para substituir Judas no grupo dos doze apóstolos (1.12-26). Posteriormente, outros líderes cristãos participaram da tarefa de testemunhar a favor do seu Senhor; Estêvão e Filipe são dois exemplos notáveis de testemunho corajoso de sua fé (7.2-53; 8.4-40). Outros cristãos simplesmente transmitiam a sua fé quando tinham oportunidade (por exemplo, 8.1-4; 11.19-21). Posteriormente, Deus chamou Paulo para participar dessa iniciativa como um homem escolhido “para trabalhar para mim, a fim de que ele anuncie o meu nome aos não judeus, aos reis e ao povo de Israel” (9.15; 22.1-21; 26.2-23). Paulo, como Pedro, ocupa um papel fundamental em Atos, como importante testemunha de Cristo.

Os apóstolos proclamaram que a morte e a ressurreição de Jesus eram o plano de Deus que estava sendo cumprido nas Escrituras (2.22-36; 3.15; 4.27-28,33; 7.52; 8.32-35; 10.38-43; 13.26-39). Jesus era aquele que redimiria a humanidade, de modo que a mensagem do apóstolo era: “— Creia no Senhor Jesus e você será salvo — você e as pessoas da sua casa” (16.31). Deus oferece a sua graça e o seu perdão a todos. Existe “paz por meio de Jesus Cristo, que é o Senhor de todos” (10.36).